O pagador de promessas

O pagador de promessas

Fazia um bom tempo que eu estava ensaiando para assistir ‘O Pagador de Promessas’, mas sabe como é, sempre que queremos assistir muito algo nunca conseguimos, não importa a desculpa! Finalmente cumpri minha promessa (sem trocadilhos).

Baseado no livro de Dias Gomes , foi dirigido por Anselmo Duarte, ganhador da Palma de Ouro em Cannes e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, é um clássico do cinema nacional, tem no seu elenco Leonardo Villar, Gloria Menezes, Geraldo Del Rey – o ‘Alain Delon brasileiro’ -, Dionísio Azevedo, Norma Bengell (maravilhosa), Othon Bastos, Antônio Pitanga.

O filme conta a história de Zé do Burro, que tem como melhor amigo Nicolau o seu burro de estimação, o mesmo vem a adoecer, e como nada conseguia fazer o burro ficar saudável novamente Zé recorre a Santa Bárbara e lhe fez uma promessa: se seu amigo melhorasse ele iria a pé até sua igreja carregando uma cruz de madeira como formar de agradecimento.

Acompanhamos a caminhada de Zé junto de sua esposa Rosa por 7 léguas, do interior da Bahia até Salvador. Eles chegam de madrugada e encontram a igreja fechada. Determinado, Zé não quer arredar o pé da escadaria da igreja, enquanto Rosa está exausta e insiste que passem a noite em um hotel e voltem pela manhã. Nisto chega o cafetão Bonitão, cafajeste e inescrupuloso ao ver que se trata de dois ‘caipiras’ se aproveita da ingenuidade do marido e lança sua lábia para Rosa e a toma.

Amanhece, e lá vai Zé do Burro agradecer com a cruz nas costas rumo a entrada da igreja, nesse final do percurso vai explicando ao padre a razão de sua promessa e como ela foi feita e é nesse ponto que as coisas se complicam: Zé não fez a promessa em uma igreja, mas em um terreno de candomblé para Iansã – equivalente a Santa Bárbara no catolicismo – e o padre acha um horror, um absurdo e não deixa Zé entrar na igreja e cumprir sua promessa.

A partir daí uma série de eventos se engrenam e a escadaria se torna uma balburdia, a impressa fica sabendo da história e começa a explorá-la, tentando fazer com que o padre mude de ideia, e dizendo que Zé fez a promessa por conta da reforma agrária,  o policial que também tenta resolver a situação (e não resolve nada, na verdade nem sabe o que fazer), o poeta que quer contar sua história, o dono da mercearia que também quer levar o seu, a esposa que se sente culpada, a mulher do cafetão que quer tomar satisfações, o cafetão que chantageia, o povo que defende, achando que ele é um santo outros que acham que é um falsário e a sacristia tentando buscar uma solução de forma que a favoreça.

E nesse meio todo está Zé, incompreendido pelo povo da cidade por sua mentalidade e objetivo simples, pagar sua promessa, e em contrapartida o mesmo não entende o modo de pensar desse povo, as complicações, as malícias, o interesse e pensa que foi abandonado pela santa tendo uma mudança de atitude e valores pessoais no final do filme. Zé do Burro foi vítima da intolerância religiosa, e mesmo no fim nada abalou sua fé, incompreendida pelo padre que julgava que ele era ‘Satanás’, um ‘feiticeiro’ somente por ter feito sua promessa em um terreiro de candomblé.

‘O Pagador de Promessas’ é um filme de 1962, e me surpreendeu pelos temas abordados, não poderia ser mais atual e a atuação de Leonardo Villar, o Zé do Burro, não como não sentir o pesar do protagonista! O principal tema do filme: a intolerância religiosa, continua a estampar os jornais, muitas pessoas seguem sendo vítimas da ignorância e incompreensão, achando que uma religião é melhor que a outra e agredindo verbal e fisicamente quem não segue a ‘religião mais correta’, esquecendo que cada um pode ter a opinião e a crença (ou não) que lhe for conveniente, não há certo ou errado, há sim uma diversidade incrível de santos, orixás, deuses, de fé.

Outro temas como o circo midiático – aqui nem é preciso se estender-, valores pessoais sendo ignorados, reforma agrária, a polícia opressora, religião e política como atualmente vemos refletida na política por meio da ‘bancada evangélica’, políticos que confundem sua fé particular com o modo que devem governar, a população que (ainda) se deixa influenciar pela mídia, estão presentes no filme e de maneira que nos faz pensar que nada mudou mais de meio século depois, apenas piorou… até quando Zé?

Uma curiosidade, a escadaria e a igreja, elementos (ou por que não personagens?) do filme ainda existem! A igreja, na verdade se chama Igreja do Santíssimo Sacramento da Rua do Passo, ela se situa no Centro Histórico de Salvador e depois de 20 anos fechada irá ser restaurada, de acordo com o site da Arquidiocese de São Salvador da Bahia. Se você for para Salvador não deixe de conferir!

O Pagador de Promessas (1962)
Direção: Anselmo Duarte
Elenco: Leonardo Villar, Gloria Meneses, Dionizio Azevedo, Geraldo Del Rey, Othon Bastos, Antônio Pitanga.
Gênero: Drama
Duração: 98 min.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s